- Queixas de sono são relatadas por adultos com TDAH, mas os resultados variam conforme medida e estudo.
- A associação não prova causalidade nem permite dizer que o sono explique todos os sintomas.
- Insônia, horário circadiano, apneia, pernas inquietas e outras causas têm avaliações próprias.
- A história do sono ajuda a contextualizar sintomas e decisões clínicas.
Para quem este texto pode ser útil
Para quem percebe que sono irregular, cansaço e atenção se influenciam e deseja compreender por que essas questões podem ser avaliadas em conjunto.
O que a pesquisa mostra
Uma revisão sistemática e metanálise de estudos em adultos encontrou diferenças em várias medidas subjetivas de sono e em algumas medidas de actigrafia, que estima padrões de sono e vigília a partir de registros de movimento, entre pessoas com e sem TDAH. Não identificou diferenças significativas em parâmetros de polissonografia, exame que registra variáveis fisiológicas durante o sono, nos estudos incluídos. Os autores ressaltaram que problemas de sono devem ser investigados, mas que os achados objetivos disponíveis eram limitados [1].
Um estudo posterior com 3.691 pacientes de um serviço especializado observou resultados positivos em rastreios de diferentes problemas de sono e associações com condições psiquiátricas concomitantes. Como os dados vêm de uma amostra clínica e de instrumentos de rastreio, eles não representam toda a população nem estabelecem causa [2].
Queixas diferentes pedem perguntas diferentes
Sono insuficiente por falta de tempo para dormir não é a mesma queixa que dificuldade para adormecer ou permanecer dormindo. Também é importante compreender o horário do sono: alterações do ritmo circadiano envolvem o ajuste entre o relógio interno e os horários de vida, e não devem ser reduzidas a desorganização [4, 5].
Outras condições merecem investigação própria, como apneia do sono, relacionada a interrupções da respiração, e síndrome das pernas inquietas, que envolve necessidade de mover as pernas e sensações desconfortáveis. Esses exemplos não formam um teste: ter uma dessas queixas não confirma TDAH nem estabelece um transtorno do sono [4].
A relação pode funcionar em mais de uma direção
Dormir pouco ou em horários irregulares pode afetar energia, atenção e regulação emocional. Dificuldades de rotina, horários tardios, ansiedade, humor, uso de substâncias, condições respiratórias ou efeitos de medicamentos também podem participar. Para algumas pessoas, questões de sono coexistem com TDAH; para outras, uma alteração do sono pode ser parte central da queixa.
A avaliação procura saber como é a rotina, quando as dificuldades começaram, se há sonolência diurna, despertares, ronco, movimentos desconfortáveis ou variações de horário. Essas informações ajudam a formular perguntas clínicas, mas não substituem investigação específica quando indicada.
O que pode ser registrado antes de uma consulta
Pode ser útil anotar por alguns dias horários aproximados de deitar e levantar, despertares, cochilos e impacto no funcionamento diurno. Esse registro não diagnostica um transtorno do sono. No acompanhamento, mudanças após iniciar ou ajustar um medicamento devem ser relatadas ao prescritor; a proximidade no tempo, sozinha, não identifica a causa. A NICE inclui observar alterações do sono durante o tratamento [3]. Evite iniciar ou suspender medicação por conta própria para tentar corrigir o sono.
Como levar a história do sono para a consulta
Relatar “durmo mal” é um ponto de partida. Para tornar a conversa mais concreta, pode ser útil explicar o que isso significa: demora para adormecer, despertares, horário que varia muito ou sensação de sonolência durante o dia. Não é necessário chegar com uma hipótese sobre a causa.
Também ajuda distinguir o tempo disponível para dormir do tempo efetivamente dormido. Em um exemplo fictício, a pessoa deita tarde porque trabalha até a madrugada; em outro, reserva tempo para dormir, mas permanece acordada. São descrições diferentes, ainda que ambas venham acompanhadas de cansaço.
Se anotar horários for trabalhoso, alguns exemplos recentes já podem ajudar. Informações de aplicativos ou relógios podem ser levadas como complemento, sem substituir a descrição da experiência nem estabelecer um diagnóstico. O profissional poderá decidir se há necessidade de investigação adicional.
O que este texto não substitui
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação psiquiátrica, clínica ou especializada em sono.
Quando buscar avaliação
Procure orientação profissional quando alterações do sono persistirem, afetarem o funcionamento ou se associarem a sonolência intensa, piora do humor ou outros sintomas preocupantes. Se houver risco imediato, procure um serviço de urgência.
Próximos passos
Leve informações sobre sono e funcionamento diurno à avaliação. Consulte também TDAH ou ansiedade? e a página de TDAH adulto.
Referências selecionadas
1. Díaz-Román A, Mitchell R, Cortese S. Sleep in adults with ADHD: systematic review and meta-analysis of subjective and objective studies. Neurosci Biobehav Rev. 2018;89:61–71. PubMed.
2. van der Ham M, et al. Sleep problems in adults with ADHD: prevalences and their relationship with psychiatric comorbidity. J Atten Disord. 2024. PubMed.
3. NICE. NG87 — recomendações de avaliação e manejo.
4. National Library of Medicine. Sleep Disorders — MedlinePlus. Material institucional educativo para definições gerais; não é estudo específico de TDAH.
5. NHLBI/NIH. Circadian Rhythm Disorders. Material institucional educativo.
